21.3.12

pequeno escrito feito depois de desfalecer em nosso gozo

NOSSO SEXO

tuas mãos
são feras famintas
que me rasgam a pele   
e me recompõem
em mosaico milagroso

tua boca
é fonte de vida e morte
onde sorvo meu sumo
e segrego meus venenos

teu pênis
é fogo sagrado   
que aquece minha alma
e me absolve os pecados

 (Curiosa)

..

8.3.12

porque hoje é dia da Mulher



      MULHER ou GÊNESE

     a Floresta lhe é dentro

     Selvagem
     como o casulo rompido
     revela-se Mito
     onde não havia nada

     no princípio, era a Mulher

     (Curiosa)

7.3.12

porque toda palavra deve ser vista pelo seu outro lado

PERDOANDO-SE

a heroína
decide tomar as rédeas de seu destino
e com uma caneta em mãos
cursa os rumos de sua nova história:

que toda imperfeição seja perdoada
reparada esquecida apagada

que toda palavra seja vista também pelo seu outro lado
que cada atitude seja considerada no seu todo
que toda máscara seja usada por escolha

que a heroína
se aperceba de sua grandeza

(Curiosa)

25.2.12

porque a Escrevente filosofa para amar - e vice-versa

DIALÉTICA DO AMOR

tempo e espaço
fluem
simultaneamente

ligados entre si

permitindo-nos
transitar
pelo passado e pelo futuro
 estando no presente

quando penso naquilo que passou
eu o experiencío uma vez mais

então
a cada vez que me chega
a mais breve lembrança sua
fecho os olhos
paro o momento

e estamos juntos

(Curiosa)

16.2.12

a Escrevente escreve um Epicédio*

AUTOEPICÉDIO

a vida lhe doeu por dentro
não deixando espaço para sentimentos mais nobres

egocêntrica
escreveu somente sobre si

seus amores
seus ódios
suas pequenezes
suas incertezas

foi indiferente
às dores alheias
ainda que falasse delas
quando sentia as suas

mas sentia
apenas as suas
como cada um de nós

pois os outros
são apenas
os outros
os outros
os outros

ela
é apenas
quem morreu hoje
e morreu doendo de Vida

(Curiosa)

..

*
Epicédio
s.m. Discurso ou poema recitado em memória de pessoa notável.
P. ext. Qualquer composição poética fúnebre.
(retirado do dicionário online de português)

2.2.12

porque a Escrevente se vê frente a uma nova paixão e tem medo

 
 
 
 
 
 
 
 
QUANDO NOS APAIXONAMOS ou
FRENTE AO TORTURADOR

o nó na garganta
o frio na barriga
a incerteza na voz
a frouxidão das pernas
o fugidio do olhar

o desvario das palavras

ah!
as infindáveis conversas
- dois monólogos de eus idealizados ...

passar por uma paixão é como enfrentar a mais cruel sessão de tortura:
se não morrermos
desmanchando-nos frente ao carrasco
sublimaremos um dia


15.1.12

porque a Escrevente se envergonha de alguns de seus atos

ISSO NÃO É UM POEMA ou CONFISSÃO

quando meus eus
mais sombrios
tomam a frente
revelo para o mundo
o que nem eu sabia

o medonho de mim

o ato
escorregadio
ladino
sem ética
racionalidade
ou moral

eu não sou um ser humano bonito

já fui

aos sete
eu era inocente
confiante
feliz
idônea
fraterna

mas desde a
vez primeira em que me assassinei(*)
perdi um jeito de sentir que eu tinha
e depois
das outras vezes em que me matei
foi-se qualquer nobreza que havia

e hoje
dos meus eus
eu sou a mais ignóbil
a que não tem mais nada

morresse agora
não me restaria nem mesmo a vela na mão
carinho que somente defunto amado tem

não me arde nenhuma chama
de empatia pelo que me tornei

e quando
uma de mim se adianta
com bandeira de autocompaixão
cuspo-lhe a cara

umas mim não merecem piedade

(Curiosa)

..

(*)
menção ao poema
da vez primeira que me assassinaram
de Mário Quintana

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!


..

a Escrevente teve um problema com ela mesma ...
está off ...

1.1.12

porque a Escrevente encontrou um velho cartão do ex-atual-sempre-amor

ESCREVIVÊNCIA

por vezes
as palavras que alcanço
me estranham
não me dizem mais
me afastam
de mim

do outro

então
quando a Palavra não me diz
invento Palavra que me diga

e no milagre da escrevivência
sai-me Nova Palavra das entranhas
gritando por sua existência

a Palavra
recém-parida
virgem de pronúncia
oca de significado

preenche-se de mim
e eu volto a existir

inflorescida

(Curiosa)

..

20.12.11

porque a Escrevente se encoleriza

UM EPIGRAMA PARA DUAS LÁPIDES ABANDONADAS

ela queria antes de tudo sexo
quando seus homens escolhia
simples e carnal sexo
nada de mais abstrato lhe apetecia

e sob mal interpretado querer
a trama de uma vida se desenrola
duas vezes viúva a senhora
ainda sem gozar sua cona

(Curiosa)

..

4.12.11

porque a Escrevente cai na fenda - como Alice no País das Maravilhas*

CAINDO NA FENDA

acalento cada novo escrito que me nasce
como um filho renascido do pós-morte

alimento
cultivo
fomento

e de repente
por uma fenda na linha onde escrevo

consigo ver
o pátio da casa da infância
(a árvore ainda no jardim)

ouço nítida
a canção da brincadeira de roda na rua
(a voz materna chamando para dentro)

o cheiro de pão fresco no olho da mãe

..

de repente
por uma fenda na linha do tempo onde escrevo
consigo escre(ver) a Vida

(Curiosa)

..

*
porque a Escrevente, vez em quando, precisa sair da realidade.
e o que temos hoje de recursos para isso?
álcool, drogas infinitas ...?
pois! esses já não me fazem ver a fenda ...

escrever é o único vício que me tem feito cair na fenda ...

ultimamente, tenho enchido caderninhos de poemetos,
ao ponto de reescrever uma dezena de vezes
cada escrito para considerá-lo acabado ...

depois de cheio o caderno, tiro as folhas e as jogo ao vento ...
ou as largo nos banheiros do meu trabalho,
ou na sala de espera de um consultório médico,
a fim de que sejam lidas .... objetivo último de qualquer poema ...

e assim consigo sobreviver a mim ...

2.12.11

porque delirar é o mais científico que a Escrevente pode ser

DIVERSIDADE EXISTENCIAL

creio em várias realidades

múltiplos caminhos
criados
por nossa
intenção e vontade

(conscientes ou inconscientes)

o átomo toma forma real
segundo cada possibilidade
formando nova totalidade
sob a superfície sem costura
onde nos movimentamos

nesses mesmos
espaços-tempos
constituídos

vivemos

não uma encarnação de cada vez
mas todas
ao mesmo tempo
infinitamente conectadas

(Curiosa)


28.11.11

porque a Escrevente foi entrevistada e experimentou a lisonja

verdade! entrevistada ...

é que o Léo, do Blog SeximaginariuM,
por algum motivo alheio ao meu conhecimento,
achou que eu daria uma boa postagem em seu famoso talksexi,
onde desfilam renomados blogueiros, em entrevistas deliciosas ...

experimentei a lisonja ...
foi bom para mim ... deu até medo ...
ela dá boa massageada no ego ... e poderia me dominar facilmente ...
mas só me restou aceitar o convite, pois já disse François La Rochefoucauld:
Quem recusa uma lisonja é porque procura ser lisonjeado duas vezes.

grata, Léo ... você me lisonjeou nas várias vezes em que me convidou ...
e eu não pude ser humilde em aceitar da primeira vez ... hoje percebo ...
é uma honra, Léo, amigo, estar publicada em seu espaço ... 

há anos estamos juntos aqui na blogosfera e
é um prazer compartilhar meu tempo e meu espaço com você
e com todos que por aqui param para deixar
seu contato de carinho ... agradecida ...

veja a entrevista aqui.

24.11.11

porque os clássicos nem sempre satisfazem a Escrevente

ÀS VEZES TENHO IDEIAS FELIZES

Às vezes tenho ideias felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despejam ...

Depois de escrever, leio...
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu ...

(...)

(Álvaro de Campos)

..

engraçado ... eu leio o que escrevo e penso:
- nossa! eu sou muito melhor que isso ...
(talvez porque eu não seja nenhuma 'Fernando Pessoa' ... )

quicá conseguisse eu expressar em palavras o belo que por instantes me cruza ...
ah! se eu lograsse expressar todo o desalento que já me passou pela alma ...
ah! seu eu encontrasse palavras para nomear o sentido que a vida me tem ...

mas não ...
sobre nada escrevo com propriedade ...
nada que escrevo é melhor que eu ...
eu sou mais do que o que consigo expressar ... e muito melhor ...
assim como todo ser humano o é ... assim como o poeta ...

acho que o poeta teve foi uma ideia infeliz ...
penso que nem mesmo ele, ainda que com vasta obra,
tenha conseguido expressar o seu todo e/ou o seu melhor ...

e isso porque a Humanidade ainda não logra fazê-lo,
nem moralmente, já que ainda grassam fome e miséria mundo afora,
nem biologicamente, uma vez que usamos pequena parte do cérebro ...

então, eu perdoo o poeta, que antes de poeta, é humano ...



23.11.11

porque a Escrevente passa tempo pensando no tempo

INFÂNCIA

no tempo
em que eu tinha todo o tempo do mundo
o tempo não existia

sempre era hora para brincar de roda
ou para viajar em um faz de conta

naquele tempo, o tempo era agora
um agora de eterno deslumbramento

(Curiosa)

8.11.11

25.10.11

porque os Eus da Escrevente se manifestam


a Escrevente anda a trabalhar demais. 12h por dia.
não foi ideia minha. nem dela. foi de uma outra de nós. uma que não escreve.
a cética. a que atravessa a rua quando iria cruzar com uma Filosofia qualquer.
a que torce os beiços frente aos escritos da Escrevente.
mais: fica com vergonha deles.

ela é do tipo trabalhadeira: baixa a cabeça e encara. tudo para não pensar.
tudo para o tempo passar. ela só precisa se manter viva. e a Vida passará.
este é seu lema: manter o corpo vivo. a mente, por ela, morria.

ela sente vergonha mesmo, talvez asco, em ver sua intimidade
escancarada na Palavra da Escrevente. tudo que a cética
esconde dela mesma, está publicado neste blog.

e nenhum ser humano, de perto, é bonito de se ver.
muito menos bonita, ainda, a Escrevente e seus Eus.

porque revelar isso tudo?
por que, afinal, a Escrevente nos expõe assim?

..

eu sei. ela escreve para continuar existindo.
e nós, os outros Eus, só existimos porque ela escreve.
simples assim.

..

para aquela que tem vergonha,
a Escrevente, em pessoa,
responde-lhe, em poema:


CORPO E ALMA

pede ele
pela metafísica
implora ela
pela matéria

corpo e alma
conjunção sagrada
cuja plenitude
está no gozo
e na Poesia

(Curiosa)


..

14.10.11

porque a Escrevente gosta da Pessoa, não do binarismo macho/fêmea



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
AMOR ANDRÓGINO

teu corpo
fortaleza
- delicado
acorda desejo
nunca antes
professado:

quero-te
muito além
do falo
lânguida fêmea
em macho vassalo

(Curiosa)

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